"É preciso que todos os homens permaneçam seres humanos durante todo o tempo em que estiverem vivos." Simone de Beauvoir

29 de jul de 2014

Fraturas em idosos

Em virtude do envelhecimento populacional, espera-se um aumento na incidência de traumas na população idosa. O traumatismo no idoso pode ser classificado como sendo de baixa energia, cujo principal representante é a queda da própria altura e, os de alta energia, como os atropelamentos e acidentes automobilísticos. Os acidentes de trânsito e transporte, as quedas e os homicídios representam as principais responsáveis entre as causas de violência no idoso. 

Trauma X Queda

A queda é o mecanismo de trauma mais frequente  nos idosos. As fraturas decorrentes de quedas ocasionam dor intensa, limitação funcional importante, risco de novas quedas e incapacidades. O fêmur proximal, o rádio distal e a coluna são os locais mais acometidos.
Dentre as muitas alterações estruturais e funcionais que ocorrem  no processo natural do envelhecimento, destacam-se aquelas relacionadas ao sistema músculo-esquelético, como: atrofia e erosões do osso cortical, aumento da reabsorção óssea, rigidez e uma menor espessura da cartilagem articular, e perda gradativa e seletiva das fibras esqueléticas, com progressiva redução da massa muscular. tais alterações podem comprometer o desempenho de habilidades motoras através da diminuição da força muscular e da elasticidade e do prejuízo da estabilidade e dinâmica articular. Ainda somado a isso, na idade avançada, o comprometimento dos mecanismos de controle postural, do equilíbrio e marcha, colaboram como condições predisponentes para as quedas. 

Trauma de alta energia

Atualmente, uma parcela crescente e significante dos idosos apresenta vida ativa e saudável, através da manutenção das atividades laborais. Esse fato determina maior exposição a acidentes externos, como atropelamentos e acidentes automobilísticos.
O idoso vítima de trauma de alta energia apresenta taxa de mortalidade maior que os jovens que sofreram do mesmo trauma. Um estudo epidemiológico no IOT-HCFMUSP com 28 pacientes idosos vítimas de acidentes com fratura, nos anos de 2005 e 2006, mostrou que  25% das vítimas apresentaram limitação à deambulação mesmo após a consolidação das fraturas.
A melhor maneira de reduzir a morbimortalidade dos idosos vítimas de trauma é a prevenção. De modo geral, promoção de programas educativos para a população que possam influenciar a legislação de trânsito e controle dos fatores de risco envolvidos na prevenção de quedas.

Fratura óssea

O manuseio do paciente na fase inicial do trauma com fratura deve ser o mais cuidadoso possível, pois qualquer movimento pode exacerbar a dor. Repouso relativo e imobilização, a depender do caso. 
O repouso no leito é medida necessária e eficiente, pelo menos nas 48 horas. A imobilização das fraturas é fundamental não só para o alívio da dor como também para evitar complicações secundárias como, por exemplo, no caso de fratura vertebral e a complicação medular. Mas tão logo seja possível, o paciente deve ser colocado sentado e ser incentivado a deambular de modo a reduzir o risco de infecção pulmonar e trombose vascular.
A dor frequentemente é a queixa principal dos pacientes, acarretando excitação e inquietude, além de determinar agravamento da resposta metabólico ao trauma. Por essas razões, além do lado humanitário, o tratamento adequado e individualizado torna-se imprescindível.

Fratura por estresse

Tais fraturas, apesar de não estarem associadas a traumas agudos e sim a "microtraumas crônicos" também merecem destaque.
As fraturas por estresse ou fadiga são fissuras microscópicas dos ossos, causadas por uma soma de quantidade de impacto. caso as exigências continuem com o esforço repetitivo, instalam-se microfraturas, prevalecendo então a reabsorção óssea. Esse tipo de fratura, algumas vezes visível no exame radiográfico simples, não é rara em pacientes portadores de osteoporose, situação clínica comum em pacientes após a sexta década de vida. Alguns pacientes não apresentam imagens características dessas lesões e, quando na tíbia, poderão ocorrer sintomas semelhantes ao de lesão do menisco, por exemplo.  As imagens de raio-x e, principalmente, a ressonância magnética poderão identificar um edema ósseo associado a presença de um traço de fratura, o que sugerirá fortemente a fratura por estresse.
"Proteção da área lesada" pela imobilização, ou não, e repouso serão necessários. Às vezes, também o uso de muletas será necessário, com o intuito de reduzir parcialmente a carga sobre o local acometido (no cado do membro inferior afetado) durante a marcha.

Periostite traumática

A periostite traumática é uma lesão causada por um trauma no osso e bastante comum, principalmente nas áreas vulneráveis como  a diáfise da tíbia. A dor óssea aparece, seguido geralmente, por edema, aumento da temperatura local e em alguns casos hematomas na região, causando até dificuldades no andar por apoiar o pé no chão.. Isto acontece, pois houve um trauma primeiramente no periósteo do osso no qual se inflama. Mas também pode ocorrer a periostite sem trauma.
Para a periostite traumática a melhor forma de tratamento é a realização de compressas de gelo durante 20 minutos dando intervalos de 1 a 2 horas entre cada aplicação, associado à elevação do membro afetado, enfaixamento de compressão e repouso da região nos primeiros dois dias após o trauma.
Tudo isso associado ao uso de anti-inflamatórios e a um programa de fisioterapia adequado para cada paciente.

Reabilitação no trauma ósseo

O processo de reabilitação no idoso ocorre de forma mais lenta em comparação com o paciente mais jovem. O período compreendido entre a restrição no leito e o retorno a deambulação é crítico. Nesta fase, além de ser mais susceptível ao comprometimento da função cardiopulmonar, aparecimento de trombose venosa profunda, úlceras de pressão e à atrofia muscular. Nessa fase, a persistência da dor é comum, não apenas pela fratura, mas pelo trauma secundário proveniente do procedimento cirúrgico e pela imobilidade na fase de recuperação.
A mobilidade precoce do idoso vítima de trauma é primordial e faz parte do processo de recuperação. Exercícios passivos e ativos ainda no leito devem ser realizados, caso o paciente não possa deambular, os quais progridem assim que possível até a deambulação.
A reabilitação do paciente idoso depende da sua motivação, de alterações neurocomportamentais, inclusive da memória e do estado de humor que antecede ao trauma, bem como dos fatores psicológicos existentes após o trauma. Todos esses fatores devem contribuir positiva ou negativamente para sua recuperação.


Referências:
- Cruz, D.T. et al. Prevalência de quedas e fatores associados em idosos. Revista de Saúde Pública. 2012.
- Melo, R.E.V.A. et al. Trauma em pacientes idosos. International Journal of Dentistry. 2004.
- Souza, J.A.G. et al. Trauma no Idoso. Associação Médica Brasileira. 2002.
- Katz, M.; Okuma, M.A.A. et al. Epidemiologia das lesões traumáticas de alta energia em idosos. Acta Ortopédica Brasileira. 2008.
- Santora, T.A. et al. Management of Trauma in the elderly patient. Surgical Clinics of North America. 1994.
- Thé, K.; Queiros, R.D. Dor óssea associada a traumas em idosos. Força-tarefa na dor óssea em idosos. Seção-6. Editor: Fânia C. Santos. 2012.

8 de jul de 2014

Teste pode prever risco de Alzheimer, diz estudo

Segundo uma matéria divulgada pelo Jornal O Globo, uma das mais novas pesquisas sobre o Alzheimer sugere que um teste é capaz de prever risco da doença em até um ano. Esse estudo foi desenvolvido visando a descoberta da cura e prevenção do Alzheimer, uma das maiores metas da Medicina. Porém, ainda precisa de estudos para uma maior exatidão dos resultados, mas já apresenta um resultado de quase 90% de precisão. 
Além disso, esse método é utilizado em pacientes que já tenham algum problema de memória. Estima-se que 60% das pessoas que já tenham um diagnóstico de "transtorno cognitivo leve", desenvolvam um quadro de demência futuramente.
O teste consiste em identificar um conjunto de um número determinado de proteínas no sangue do paciente. Se a presença dessas proteínas forem confirmadas no teste, a doença poderá evoluir em até um ano. E se for aprovado pelas autoridades de saúde, o exame poderá estar no mercado em até dois anos.

Veja a matéria completa e mais detalhes sobre a pesquisa no link abaixo:

Fonte:


7 de jul de 2014

Síndrome da fragilidade no idoso: você sabe que síndrome é essa?

O termo fragilidade tem sido usado na prática para designar, dentre a população de idosos, aqueles que apresentam características clínicas atribuídas ao envelhecimento, associado à existência de comorbidades, como por exemplo, diminuição da massa e da força muscular, exaustão, alteração da marcha e do equilíbrio, anorexia, perda de peso progressiva, dentre alguns outros. Todos esses fatores levam a um maior risco de eventos adversos como quedas, incontinência urinária, hospitalização e morte. 
A fragilidade representa hoje, um importante problema de saúde pública, e seu desenvolvimento é compreendido como decorrente da interação de fatores biológicos, psicológicos, cognitivos e sociais, ao longo da vida, e com potencial para prevenção, identificação e tratamento dos sintomas. Sua prevalência é de aproximadamente 6,9% em idosos que vivem na comunidade, e essa frequência tende à elevação com o aumento da idade. Nessa perspectiva, o idoso frágil precisa ser compreendido como prioridade frente às políticas públicas de saúde, uma vez que ele demanda maior necessidade de cuidados.
Enquanto ao conceito, atualmente, não existe um consenso definido quanto à fragilidade, nem como poderia ser identificada ou mesmo avaliada. As primeiras definições que utilizaram critérios para a indicação de fragilidade consideraram idosos frágeis, indivíduos com mais de 65 anos de idade, dependentes para as suas atividades de vida diária e geralmente institucionalizados. Mas com o passar do tempo, algumas definições ganharam um novo foco.
O conceito mais aceito a descreve como síndrome geriátrica de caráter biológico e natureza multifatorial caracterizada por um estado de vulnerabilidade fisiológica, por diminuição de reserva e resistência aos estressores, devido declínios cumulativos dos múltiplos sistemas fisiológicos. Os autores Fried (2001) e Silva (2009), procurando identificar esta síndrome em idosos, reuniram condições como emagrecimento ligado à desnutrição e perda de massa muscular, fraqueza muscular, baixa resistência, lentidão e baixos níveis de atividade, para formular um fenótipo de fragilidade.
Segundo essas características, os idosos são classificados como frágeis, quando apresentam três ou mais dos componentes citados, pré-frágeis, quando apresentam um ou dois deles, e não-frágeis, quando não apresentam qualquer dessas características. Dessa forma, foi constatado que idosos que preenchem esses critérios, estão mais suscetíveis às quedas, ao declínio funcional, à hospitalização e à morte em um período de três anos.
Alguns outros estudos sugerem que para ser considerado frágil, o idoso deve atender a um critério, dentre vários. Deve-se incluir a doença crônica incapacitante, o estado de confusão mental, a depressão, as quedas, a incontinência urinária, a desnutrição, as úlceras por pressão e os problemas socioeconômicos. Desta forma, a fragilidade pode ser observada quando o idoso preenche no mínimo quatro das seguintes características:
  • idade igual ou superior a 80 anos;
  • depressão;
  • instabilidade de equilíbrio e marcha;
  • diminuição na força de preensão palmar;
  • uso de sedativos;
  • diminuição da força nas articulação dos ombros e joelhos;
  • déficits nos membros inferiores;
  • déficit visual.
A característica essencial da fragilidade é a noção do risco decorrente da instabilidade. O idoso torna-se frágil quando o organismo perde a complexidade de manutenção de sua dinâmica e apresenta respostas de não adaptação aos estresses. Em geral, os idosos percebidos como frágeis, são aqueles que apresentam riscos mais elevados para desfechos clínicos adversos. Às vezes, algum evento considerado de pequeno impacto para alguns idosos, pode causar sérias limitações e resultar ou não na perda de sua autonomia.
Importante destacar que a fragilidade está associada à idade, embora não seja resultante exclusivamente do processo de envelhecimento, já que a maioria dos idosos não se torna frágil obrigatoriamente.
Na literatura atual, o que vemos é um desafio de transferir o conhecimento para o sistema de saúde, pois ainda é escassa a discussão sobre a síndrome. Dessa forma, buscaremos reduzir a incidência, a prevalência e o impacto da fragilidade na população de idosos.

Referências:
- Friend, L.P.; Tangen, C.M. et al. Frailty in older adults: evidence for a phenotype. The Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences. 2001.
- Woodhouse, K.W. et al. Who are the frail elderly? QJM: An International Journal of Medicine. 1998.
- Winograd, C.H. et al. Screening for frailty: criteria and predictors of outcomes. Journal of the American Geriatrics Society. 1991.
- Speechley, M.; Tinetti, M. Falls and injuries in frail and vigorous community elderly persons. Journal of the American Geriatrics Society. 1991.
- Campbell, A.J.; Buchner, D.M. Unstable disability and the fluctuations of frailty. Age Aging. 1997.
- Strawbridge, W.J. et alAntecedents of fraity over three decades in an older cohort. The Journals of Gerontology Series B: Psychological Sciences and Social Sciences.1998.
- Fried, L.P.; Walston, J.M. et alFrailty and failure to thrive. Principle of Geriatric Medicine and Gerontology. 2003.
- Bortz, W.M. A conceptual framework of frailty. The Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences. 2002.
- Macedo, C. et alSíndrome da fragilidade no idoso: a importância da fisioterapia. Artigo de Revisão. Arquivos Brasileiros de Ciências da Saúde.
- Bregman, H. et al. Frailty: an emerging research and clinic paradgm: issues and controversies. The Journal of Gerontology. 2007.
- Breda, J.C. Prevalência de quatro critérios para avaliação de fragilidade em uma amostra de idosos residentes na comunidade: um estudo exploratório. Universidade estadual de Capinas. 2007.